quarta-feira, 19 de abril de 2017

JOGOS TEATRAIS I - (15/03 - 12/04)

Jogos! Eu sinto uma espécie de sentimento ambíguo por essa aula, é uma relação de amor e ódio. Mas não é questão de odiar, e sim de entrar em pânico num palco e não saber absolutamente nada do que fazer. Eu sou péssimo com improvisação. No meu primeiro dia de aula, eu surtei no palco e caí no chão, tentei improvisar com aquilo e acho que no fim deu certo.
Porém algumas coisas me ajudaram a melhorar essa técnica de improvisação, e diminuir o caos interno que eu vivia. Um exemplo de exercício que me ajudou nessa superação é a questão da fala interna, ela consiste em você escrever num papel tudo que seu personagem está pensando naquela situação e isso acaba aumentando sua intimidade com o seu personagem. Você desenvolve ele melhor, você se sente mais seguro na interpretação dele e cria uma fidelidade maior ao que você estava pensando inicialmente. É realmente algo encantador de se fazer, eu no início tinha um pé atras com isso, na minha cabeça se passava a mensagem "isso é coisa de doido", mas somos todos loucos e a loucura é poética pro mundo da arte. Resolvi então testar, e me apaixonei. 
Mudando um pouco de assunto, trabalhamos também com objetos de estranhamento. No primeiro contato eu achei algo conflitante, porque ao mesmo tempo que você está fazendo algum tipo de papel, o objeto de estranhamento acaba tirando um pouco da sua essência e dilui seu personagem á algo que o público pense ser. Por exemplo, em uma apresentação minha, eu era um cirurgião porém estava utilizando orelhas de ET e uma coroa na cabeça. No entender do observador ele vai associar meus objetos á cena e vai achar que eu sou uma Princesa Alienígena Cirurgiã. Eles são objetos que naturalmente não fariam parte da cena, porém quando postos na mesma, forçam o imaginário do espectador. Utilizamos de adereços á figurinos, e até mesmo maquiagens. Um dos grandes nomes no mundo do teatro, que trabalhava com o efeito de estranhamento é Bertold Brecht, um alemão incrível que escreveu e dirigiu peças entre 1918 - 1955, Pina Bausch também é bem conhecida pela utilização de estranhamento em suas peças, falei dela na postagem anterior.
Uma das coisas que mais mexeu comigo, foi a questão da regra de jogo. Ela se baseia em elaborar ações durante a apresentação, que não façam parte da mesma. Não é preciso ter sentido com o "quem, onde e o que". As vezes, as regras costumam não dar muito certo, o que acaba atrapalhando a gente no desenrolar do ato. 

Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.” (Antonin Artaud)

terça-feira, 18 de abril de 2017

CORPO I – (15/03 – 12/04)

Olá novamente, meus queridos leitores, hoje iremos falar sobre as aulas de corpo.
Ah, como eu adoro essa aula! É tão bom você poder trabalhar cada centímetro de ti para o desenvolvimento de algo poético.
Uma das coisas que mais estudamos nesse meio tempo, foi a “partitura física”, da qual deveríamos treinar até que nossos movimentos fossem naturais, próprios da rotina do nosso corpo. É interessante ressaltar, que a partitura física pode sofrer transformação e consequentemente mudar todo o seu sentido. Um exemplo disso foi um exercício feito em aula, onde minha partitura inicialmente era de um operário de uma fábrica vulgo, CC (minha forma carinhosa de chamar o Charles Chaplin) no filme Tempos Modernos & posteriormente com apenas algumas alterações virei um jardineiro psicótico que odiava a natureza.
Embora tenhamos feito extração de partituras apenas do cinema mudo, a partitura física está presente em quase tudo no mundo artístico, porém nos filmes sem áudio ela era feita com maior dilatação justamente para passar a sensação do momento da melhor forma possível ao espectador. Percebe-se isso ao notar que toda ação é feita de forma mais exagerada, á ponto de ser quase caricato.
Outros exercícios legais que praticamos em aula foram o "exercício de dilatação" que consistia em você realizar ações com os braços para um lado e com o corpo para outro (ex. empurrar, torcer, furar) e tivemos também a “ação sobre o outro”, que consistia em você executar alguma ação física sobre o seu companheiro de exercício. Particularmente, eu fiquei extremamente sem graça de realizar essa tarefa, principalmente por estar com um parceiro ao qual eu nunca tive nenhum tipo de contato. Mas o exercício foi fluindo após ter sido feito a troca de colega, e percebi que isso era uma forma de aumentar sua confiança tanto no próximo quanto a sua própria, em questão do exercimento da ação. Um exemplo na arte da ação sobre o outro é a maravilhosa, Pina Bausch, que executou de forma perfeita essa prática na sua obra Cafe Müller como vocês podem conferir no vídeo abaixo:


Pina Bausch é alemã, um ícone no teatro pós dramático, referência na dança-teatro e conhecidíssima por sua utilização de água & areia em palco.

"É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante." (Friedrich Nietzche)


domingo, 9 de abril de 2017

VOZ I - (20/03 - 03/04)

Olá, aprendizes, atores & curiosos.
Neste postagem abordarei o conteúdo das aulas de VOZ I.
Durante as aulas que ocorreram até este momento, diversos temas foram abordados e diversos métodos apresentados. Começarei pelas diferentes formas de se emitir um som, até mesmo o ruído é considerado, e todas as pessoas possuem singularidade na execução dos mesmos. É o caso do View Point, você lê o seu texto como se sua voz estivesse realizando uma ação física. Por exemplo: "Socar com a voz", você pode não ter noção de como isso ocorre a principio, mas a ideia é a alteração da voz em função da ação exercida que remete a percepção de ação física, mesmo que nenhum movimento corporal seja realizado. É uma espécie de simulação de uma ação executada pela voz, onde a intenção do interlocutor é transmitir uma sensação mais próxima da realidade que se deseja alcançar pelo receptor.
Outro assunto tratado em aula é a “voz extra-cotidiana”, que tem como intuito um estranhamento formal, uma alteração ou deformidade daquilo que seria comum. Podemos citar como exemplo a questão do sotaque de outros países, que para nós seria um tipo de voz extra-cotidiana, algo divergente do que estamos acostumados no dia-a-dia.
Cada pessoa tem uma percepção diferente de como seria uma ação vocal, não existe "som correto", o que denota a singularidade e intensidade do autor da ação, criando assim algo único e particular. Temos então como resultante um leque diverso de possibilidades para a utilização, modificação e impostação da voz.
Um exemplo de exercício vocal podemos conferir no vídeo abaixo, onde no "Odin Teatret" de Eugênio Barba é representado através de diversos movimentos a fim de encontrar a melhor sonoridade, utilizando-se da ressonância corporal. Eugênio Barba é um teórico italiano da antropologia teatral, formado em Literatura Norueguesa, Francês e História da Religião pela Universidade de Oslo. As diversas representações criadas por este nos dão ideia de como os exercícios de corpo são importantes para o aperfeiçoamento da performance vocal.





"Não há dúvidas que a expiração conduza a voz. Não há dúvidas que seja uma ação material, não metafórica ou sutil. Mas para conduzir a voz, a expiração deve ser orgânica e aberta." (Jerzy Grotowski, Texto: A voz - Conferência para estagiários estrangeiros do Teatro Laboratório em maio 1969)